Ex-PM liderava esquema milionário de agiotagem com violência, tortura e lavagem de dinheiro

Caso começou após a PM identificar enriquecimento incompatível e repassar investigação ao Gaeco

Por: jean michel sanches piccoli 16.5K
 Ex-PM liderava esquema milionário de agiotagem com violência, tortura e lavagem de dinheiro

O Ministério Público identificou que o esquema de agiotagem liderado por um ex-policial militar se tornou milionário ao aplicar juros de até 50% ao mês e recorrer a ameaças, violência e até tortura para cobrar dívidas. A organização criminosa, revelada em coletiva nesta quarta-feira (26.11), era formada por seis policiais da ativa, dois aposentados, um que pediu exclusão, além de familiares e pessoas próximas que atuavam em conjunto para emprestar dinheiro, cobrar débitos e lavar os valores obtidos.

 
Segundo o Ministério Público, o grupo se estruturou ao longo dos anos com divisão de funções, uso de cobradores e apoio de empresas de fachada para mascarar a origem dos recursos. Em pelo menos um caso, uma vítima foi torturada para forçar o pagamento. Há boletins de ocorrência registrados contra integrantes da organização, que operava de forma contínua e com métodos de intimidação.

A operação que expôs o esquema começou depois que a própria Polícia Militar identificou sinais de enriquecimento incompatível entre alguns agentes. As primeiras suspeitas apareceram em 2021, quando policiais passaram a exibir patrimônio muito acima do que seria possível com o salário da corporação. A Corregedoria abriu investigação interna e concluiu que não se tratava de crime militar, repassando o caso ao Gaeco, que aprofundou a apuração e identificou a atuação criminosa.

A investigação também aponta para lavagem de dinheiro por meio de empresas de fachada e investimentos imobiliários. Parte das firmas registradas não possuía funcionários e funcionava em endereços inexistentes, servindo apenas para movimentar valores obtidos com agiotagem. Um dos investigados registrou quase 30 terrenos em seu nome e manteve ligação com uma dezena de empresas. A apuração também localizou veículos, equipamentos eletrônicos, contratos, cheques, notas promissórias e valores em espécie associados ao grupo, além de um avião.

Na operação deflagrada na manhã de hoje (26), foram cumpridos 28 mandados de busca e 22 ordens de sequestro de bens. O Gaeco apreendeu 11 armas, 44 celulares, notebooks, tablets, CPUs, ATMs, documentos e 19 veículos entre apreendidos e sequestrados. O material será incorporado ao inquérito para mapear o patrimônio e definir a responsabilidade de cada investigado.

Apesar dos indícios reunidos, o Ministério Público não pediu prisões preventivas nesta fase por falta de contemporaneidade, já que a jurisprudência exige fatos recentes para justificar a medida. Até o momento, as prisões registradas ocorreram apenas por posse irregular de arma de fogo. O MP afirmou que, se houver risco de fuga ou surgirem novos elementos, novas medidas poderão ser adotadas.

A Polícia Militar declarou que a operação não compromete a instituição e reforçou que colaborou com o Gaeco desde o início das apurações. A Corregedoria classificou os investigados como indivíduos que desviaram de função e disse que continuará atuando para afastar servidores envolvidos em condutas ilícitas.