Linha, fé e empreendedorismo: estudante da UFMT constrói marca própria aos 20 anos
Jovem aprendeu crochê sozinha, superou imprevistos e transformou hobby em renda e projeto de vida
Aos 20 anos, a estudante de pedagogia Leda Gomes Mcytsniy Rabelo transformou linha e agulha em fonte de renda, terapia e projeto de vida. Moradora do bairro Jardim comodoro, em Cuiabá, ela é a criadora de uma loja on-line, especializada em chaveiros de crochê e amigurumis — técnica japonesa que dá forma a pequenos bonecos e personagens feitos à mão.
O negócio nasceu há cerca de um ano, mas a relação de Leda com o artesanato começou muito antes. “Eu sempre fui muito autodidata. Aprendi crochê sozinha pelo YouTube”, conta. A habilidade, no entanto, vem desde a infância. “Quando eu tinha uns 09 anos, participava de um projeto na escola pública onde estudei a vida toda. Era a oficina de artesanato do Educamais. Eu era a única criança no meio de um monte de pessoas mais velhas. Aprendi a pintar pano, bordar, fazer artesanato. Sempre gostei muito.”
Depois de quase dez anos sem praticar, a vontade reapareceu de forma inesperada. “Um dia me veio na cabeça: e se eu aprendesse a fazer crochê? Fui com meus pais, comprei uma linha, uma agulha e falei: ‘Vou aprender’.” O primeiro resultado não saiu como o planejado. “Eu comecei tentando fazer uma peça de roupa, mas errei os pontos e saiu um amigurumi. Quando vi aquele bonequinho pronto, pensei: ‘Olha, gostei’.”
A partir dali, mergulhou em pesquisas nas redes sociais, assistiu a novos tutoriais e produziu o primeiro personagem. “Assim que fiz, criei meu Instagram e comecei a postar.”
Primeira feira e o “quase” que não foi
O impulso para levar o hobby a sério veio na faculdade. Aluna de pedagogia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Leda viu a inscrição para participar de uma festa junina no centro cultural da instituição e decidiu arriscar. “Levei umas 12 peças numa bandeja só, cheia de coragem. Nem sabia direito como funcionavam as feiras.”
O que parecia simples quase não aconteceu. A inscrição havia sido perdida pela organização. “Um dia antes do evento eu trombei com a moça responsável na faculdade e perguntei. Ela disse que não tinha visto minha inscrição, mas que ainda dava tempo.” No mesmo dia, enquanto finalizava as peças, outro susto: “Minha pistola de cola quente estourou quase na minha mão. Eu não tinha tempo de sair para comprar outra.”
A solução veio em rede. “Minha tia, que é de Rondonópolis, estava em casa. Minha madrinha ligou para ela e ela conseguiu achar uma papelaria aberta no horário de almoço e comprar outra para mim. No fim, deu tudo certo.” Na feira, quase todas as peças foram vendidas. “Sobrou acho que só duas. Foi ali que eu decidi focar mais.”
Para Leda, os episódios são mais do que coincidência. “Por trás de tudo do meu trabalho, tem sempre uma mão divina que me ajuda a continuar. Quando penso em desistir por causa da rotina pesada da faculdade, parece que algo me faz seguir.”
Empreender para ter liberdade
A loja também representa autonomia. Leda está no sexto semestre e deve se formar no meio do próximo ano. Ela optou por não buscar estágio fixo para priorizar a formação acadêmica. “Eu tenho o privilégio de meus pais me ajudarem enquanto estudo. Quero focar na faculdade, em pesquisa, projetos de extensão. A loja me dá flexibilidade de horário e ainda gera uma renda extra.”
Embora o lucro ainda seja modesto, ela reinveste tudo. “Tudo que entra retorna como investimento. Estou melhorando meu espaço de trabalho, comprando materiais adequados, investindo em embalagens de qualidade e grades de exposição para eventos. Cada detalhe é pensado com carinho, porque acredito que o acabamento também conta a história do meu trabalho.”
As vendas começaram pelo Instagram, mas já avançam para outras plataformas e encomendas personalizadas, inclusive com entrega por aplicativo. “As pessoas compram, gostam e indicam para outras. Estou criando minha rede de clientes aos poucos.”
Um dos trabalhos que mais a marcou foi a produção de um kit didático de amamentação para uma doula. As peças representam, em crochê, o tamanho do estômago do bebê em diferentes fases e auxiliam na orientação de mães. “É perceber que o crochê pode ir além do decorativo, pode ser educativo também.”
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