MPF liga Mauro Mendes a garimpo abastecido com mercúrio ilegal e investigação vai ao STJ
Interceptações citam “garimpo do Mauro Mendes” e MPF aponta vínculos com a Mineração Aricá
O Ministério Público Federal (MPF) apontou “indicativos importantes” de que a Mineração Aricá também pertence ao ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes em uma investigação sobre a aquisição de pelo menos 314 quilos de mercúrio sem autorização do Ibama para utilização na produção de ouro.
Entre as evidências reunidas estão interceptações que mencionam o “garimpo do Mauro Mendes”, vínculos societários e familiares e o depoimento de um funcionário que relatou visitas do então governador ao empreendimento. Diante dos indícios, a Justiça Federal determinou a remessa da investigação ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
A conclusão do MPF está sustentada em elementos reunidos pela Operação Hermes. Além das conversas interceptadas, os procuradores identificaram vínculos empresariais entre Mendes e uma antiga sócia da Aricá, a participação de sua esposa e de seu filho no histórico societário ligado à mineradora e o relato de um funcionário sobre a presença do ex-governador no local.
A investigação apura um esquema de contrabando e comercialização clandestina de mercúrio atribuído ao chamado Grupo Veggi. Segundo o MPF, a organização utilizava empresas de fachada, informações falsas nos sistemas do Ibama e documentos fiscais fraudulentos para dar aparência de legalidade ao metal contrabandeado.
“Garimpo do Mauro Mendes”
Um dos elementos destacados pelo MPF aparece nas conversas interceptadas pelos investigadores.
Segundo a investigação, Arnoldo Veggi negociava mercúrio clandestino destinado à Mineração Aricá e emitia documentos fiscais que registravam falsamente a comercialização de “bolas de ferro”.
Em 9 de junho de 2022, Rafael Martins Moreira dos Santos, conhecido como Rafael Piqui e apontado como intermediário das negociações, tratava da emissão de uma nota fiscal quando fez referência direta a Mauro Mendes.
“Tá porra! É do Mauro, cara! Ele é amigo do meu pai, cara. Eu tô falando pra você, eu tô correndo dentro desse trem aí, cara. Nós vamos vender”, diz a transcrição juntada pelo MPF.
Quatro dias depois, em 13 de junho, surgiu uma segunda referência. Conforme a manifestação ministerial, Arnoldo Veggi contou ao tio e sócio Alberto Veggi que havia emitido uma nota fiscal descrevendo a mercadoria como “bolas” para encobrir o envio de mercúrio à Aricá. Questionado sobre o destino da nota, teria respondido que se tratava do “Garimpo do Mauro Mendes”.
As expressões constam das conversas interceptadas e são atribuídas aos investigados. Isoladamente, elas não representam conclusão judicial de que Mendes seja proprietário do empreendimento.
MPF aponta compra de 314 kg de mercúrio
Segundo os procuradores, a Mineração Aricá e a KIN Mineração adquiriram ao menos 314 quilos de mercúrio entre 2022 e 2023 sem as autorizações exigidas pelo Ibama.
O MPF sustenta que o metal foi armazenado e utilizado na produção de ouro. A investigação trata a aquisição irregular como possível contrabando e aponta possível crime ambiental pelo armazenamento e uso de substância tóxica e perigosa em desacordo com a regulamentação.
As duas mineradoras, conforme a investigação, integravam o mesmo conglomerado e adquiriam mercúrio de Arnoldo Veggi sem que as operações aparecessem no Cadastro Técnico Federal (CTF) do Ibama.
Em novembro de 2023, uma fiscalização encontrou 5,34 quilos de mercúrio metálico na sede das empresas. O Ibama registrou que a substância tóxica era mantida em depósito em desacordo com as exigências regulamentares.
Reportagem da Repórter Brasil publicada em abril deste ano também mostrou que a Aricá havia sido multada em R$ 1,5 milhão pelo Ibama e teve área embargada em 2023 por irregularidades envolvendo mercúrio. Segundo a publicação, a mineradora contestava administrativamente as autuações.
Mercúrio virava “bola de ferro” nas notas
O método descrito pelos investigadores consistia na emissão de documentos fiscais de produtos aparentemente lícitos para encobrir o fornecimento de mercúrio.
Em 10 de agosto de 2022, conforme o MPF, Arnoldo Veggi orientou um operador a emitir uma nota fiscal por meio da empresa J.S. Torres para a Aricá. Como a mercadoria verdadeira seria mercúrio, o comprador necessitava de uma nota indicando falsamente a venda de “bola”.
Para os investigadores, a conversa indica que o procedimento não era isolado, já que Arnoldo teria orientado que a operação fosse repetida da mesma forma que anteriormente.
O MPF também identificou movimentações envolvendo a KIN Mineração.
Em outubro daquele ano, Arnoldo afirmou em áudio que a Aricá havia solicitado o cancelamento de uma nota fiscal e de um boleto e determinado que os documentos fossem refeitos em nome da KIN.
“Aricá pediu pra cancelar a nota e o boleto. É pra fazer em nome dessa empresa aí, agora”, registra a transcrição.
Na interpretação dos investigadores, o episódio reforça a ligação operacional entre as empresas e indica que a KIN passou a figurar em operações anteriormente realizadas em nome da Aricá.
Funcionário relata visitas de Mauro ao garimpo
Outro elemento utilizado pelo MPF para relacionar Mauro Mendes à Aricá veio de dentro da própria mineradora.
Bruno Kenzo Deitos, identificado como funcionário da empresa havia sete anos, afirmou em depoimento que Luís Antônio Taveira Mendes, filho de Mauro, exercia funções gerenciais na chamada “linha 04” da Aricá.
O trabalhador disse ter a impressão de que Luís Antônio era dono daquela linha da mineração. Também declarou que Mauro Mendes esteve no empreendimento nas mesmas ocasiões em que seu filho esteve presente.
Segundo o depoimento, pai e filho iam ao local para “acompanhar as obras”.
O funcionário afirmou ainda que a KIN funcionava como uma planta dentro da Aricá e posteriormente teria sido totalmente absorvida pela mineradora. Segundo ele, a Aricá produzia em média 54 quilos de ouro por mês e utilizava mercúrio no processo produtivo.
Maney estabelece elo societário
Para o MPF, os vínculos não se restringem às visitas ou às referências feitas nas conversas interceptadas. Os procuradores reconstruíram o histórico societário da Aricá e identificaram que a Maney Participações Ltda. manteve 40% da mineradora entre 7 de novembro de 2011 e 15 de janeiro de 2020.
Mauro Mendes, por sua vez, consta como sócio da Maney desde 24 de agosto de 2017, conforme os documentos utilizados pelo MPF. Houve, portanto, período de sobreposição entre a participação da Maney na Aricá e a presença de Mendes no quadro societário da Maney.
A investigação encontrou ainda uma conversa envolvendo Tiago, Edilson e uma pessoa identificada como “Cláudio da Maney”.
No diálogo sobre fornecimento de mercúrio para a Aricá, Edilson afirma que “Claudio da Maney” queria receber o produto “na lata” e fazer “um pouco com papel e um pouco sem papel”.
O documento não esclarece, nesse trecho, qual seria formalmente a função de “Cláudio da Maney”.
Virginia e Luís Antônio também aparecem
O MPF também considerou os vínculos familiares na reconstrução das relações com a mineradora. A manifestação registra que Virginia Mendes, esposa de Mauro, foi sócia da Aricá entre 2019 e 2020. Luís Antônio Taveira Mendes, filho do casal, também aparece no histórico societário relacionado à mineradora.
Luís Antônio já havia entrado no radar da Operação Hermes em 2023. Reportagens da época mostraram que ele ocupava cargo de direção na KIN durante parte do período em que a Polícia Federal situou as supostas aquisições clandestinas de mercúrio.
Foi a soma desses elementos que levou o Ministério Público a registrar: “Há, portanto, indicativos importantes de que a Mineração Aricá é uma empresa que pertence também a Mauro Mendes.”
Indícios levam investigação ao STJ
A identificação dos possíveis vínculos de Mauro Mendes com os fatos alterou o rumo da investigação. Como os episódios investigados ocorreram enquanto ele exercia o mandato de governador de Mato Grosso, entre janeiro de 2019 e março de 2026, o MPF defendeu a remessa da apuração ao Superior Tribunal de Justiça.
Os procuradores sustentaram haver indícios de possível cometimento de delitos no período em que Mendes exercia o cargo e invocaram o entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a manutenção do foro para crimes supostamente praticados no exercício da função e em razão dela.
Em 20 de maio de 2026, o juiz federal substituto Anderson Vioto Silva, da 1ª Vara Federal de Campinas, acolheu o pedido.
Na decisão, o magistrado reproduziu os elementos apresentados pelo Ministério Público sobre a Maney, Virginia Mendes, Luís Antônio e a presença de Mauro Mendes no garimpo e determinou a remessa da investigação ao STJ.
A decisão não condena Mauro Mendes nem estabelece definitivamente que ele seja proprietário da Mineração Aricá. Nesta etapa, a Justiça reconheceu a existência de elementos apresentados pelo MPF envolvendo uma autoridade que possuía prerrogativa de foro à época dos fatos, determinando que a continuidade da apuração ocorra na instância competente.
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